Entrevista
com o maior expoente da cultura cunhense
Mestre
Zé Jerome
Caricatura realizada por Edilson Bilas
Sr.
Zé Jerome como foi a sua participação em Brasília?
“Eu estou muito feliz,
muito feliz mesmo”, saí de Cunha para dar aulas durante duas semanas na
Universidade Nacional de Brasília na disciplina Artes e Ofícios dos Saberes
Tradicionais. Sou um dos cinco mestres
de cultura popular do Brasil escolhido para participar do Projeto que busca a
troca de saberes entre a academia e a cultura popular.
Quantos
anos o senhor tem e há quantos participa da Congada de São Benedito?
Tenho 83 anos de idade,
dos quais 70 anos dedicados á Congada de Moçambique.
Quem
esteve acompanhando o Senhor na Universidade?
Comigo foram o contra mestre,
Benedito Antonio, meu irmão, de 80 anos, minha filha Laura Divino que não dança;
meu neto Mateus Borges de 12 anos, e mais dois integrantes do grupo. “Os
meninos estão aprendendo rápido, nem esperava que eles aprendessem”, diz o
mestre satisfeito sobre seus novos alunos.
Quantos
são os membros da Congada de São Benedito?
O grupo de Congada de
Moçambique de Cunha é composto por 26 integrantes, o mais novo tem 15 anos, mas
a maioria tem mais de 50.
Com
quantos anos o Senhor começou a participar da Congada?
A primeira vez que
peguei no apito tinha 10 anos, ganhei de meu tio materno, um grande mestre do
congado e que antes de falecer, pediu a mim que continuasse seu trabalho.
“Quando a gente recebe o apito, recebe também a responsabilidade, precisa saber
as músicas, é o apito que manda”. Assim revela o mestre e diz que já avisa aos
congueiros que precisará passar o apito. “Eu ainda quero viver muito, mas não
vou viver para sempre”.
Quem
é o mais novo membro do grupo?
Mateus meu neto, é o
príncipe que carrega o estandarte, que já tem 150 anos.
Como
os alunos viram essa iniciativa?
Maria Vitória, do curso
de antropologia e Edcarlos Ulapha, engenheiro mecânico e aluno especial da UnB,
aprovaram a iniciativa. “E a melhor coisa que poderia acontecer na UnB e acho
que tinha que ser obrigatório para todos os cursos. O que estamos recebendo é
informação ancestral” diz Edcarlos. Maria Vitória acha que o tempo é pouco e
acredita que isso descentraliza o conhecimento na universidade. “ É outra forma
de sabedoria”.
O
que é Encontro dos Saberes?
O Encontro de Saberes é
um projeto piloto que busca o diálogo sistemático entre os saberes acadêmicos e
os saberes indígenas, afro-brasileiro, populares e de outras comunidades
tradicionais e levou para as salas de aula da UnB mestres de artes e ofícios
populares para ministrarem aulas na disciplina Artes e Ofícios dos Saberes
Tradicionais.
Sr.
Zé Jerome essa disciplina foi criada quanto?
A disciplina foi
ofertada no segundo semestre de 2010 dentro da grade regular da graduação da
universidade.
Teve
participações de outros Mestres?
Sim, teve as
participações dos seguintes mestres : Biu Alexandre, mestre de teatro popular
de Cavalo Marinho, de Pernambuco; Lucely Pio, mestra raizeira quilombola do estado
de Goiás, ligada à articulação Pacari de Plantas Medicinais do Cerrado e o
mestre Benki Ashaninka, representante do povo Ashaninka do Acre, que desenvolve
um trabalho de conhecimento da floresta comprometido com a proteção ambiental.
As minhas aulas encerraram na segunda-feira, dia 22 e que encerrou a disciplina
foi o mestre Maniwa Kamayurá, representante dos povos indígenas do Alto Xingu,
especialista em construção da residência tradicional Kamayurá. Cada mestre foi
acompanhado por um professor da UnB.
Quem
eram os parceiros nesse projeto?
O projeto tinha
parceria do Ministério da Cultura, por meio da Secretaria da Identidade e da
Diversidade Cultural (SID/MinC), do Ministério da Educação, por meio da
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC) e da Universidade de Brasília. E conta com a
parceria do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), de Inclusão no
Ensino Superior e na Pesquisa, órgão do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Cientifico e Tecnológico (CNPq).
Entrevista realizada no dia 03/04/2017 no museu Francisco José Veloso, por mim Cláudio Querido
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