terça-feira, 23 de maio de 2017

Entrevista com o maior expoente da cultura cunhense
Mestre Zé Jerome


Caricatura realizada por Edilson Bilas
                                                                    

Sr. Zé Jerome como foi a sua participação em Brasília?
“Eu estou muito feliz, muito feliz mesmo”, saí de Cunha para dar aulas durante duas semanas na Universidade Nacional de Brasília na disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais.  Sou um dos cinco mestres de cultura popular do Brasil escolhido para participar do Projeto que busca a troca de saberes entre a academia e a cultura popular.

Quantos anos o senhor tem e há quantos participa da Congada de São Benedito?
Tenho 83 anos de idade, dos quais 70 anos dedicados á Congada de Moçambique.

Quem esteve acompanhando o Senhor na Universidade?
Comigo foram o contra mestre, Benedito Antonio, meu irmão, de 80 anos, minha filha Laura Divino que não dança; meu neto Mateus Borges de 12 anos, e mais dois integrantes do grupo. “Os meninos estão aprendendo rápido, nem esperava que eles aprendessem”, diz o mestre satisfeito sobre seus novos alunos.


Quantos são os membros da Congada de São Benedito?
O grupo de Congada de Moçambique de Cunha é composto por 26 integrantes, o mais novo tem 15 anos, mas a maioria tem mais de 50.

Com quantos anos o Senhor começou a participar da Congada?
A primeira vez que peguei no apito tinha 10 anos, ganhei de meu tio materno, um grande mestre do congado e que antes de falecer, pediu a mim que continuasse seu trabalho. “Quando a gente recebe o apito, recebe também a responsabilidade, precisa saber as músicas, é o apito que manda”. Assim revela o mestre e diz que já avisa aos congueiros que precisará passar o apito. “Eu ainda quero viver muito, mas não vou viver para sempre”.

Quem é o mais novo membro do grupo?
Mateus meu neto, é o príncipe que carrega o estandarte, que já tem 150 anos.

Como os alunos viram essa iniciativa?
Maria Vitória, do curso de antropologia e Edcarlos Ulapha, engenheiro mecânico e aluno especial da UnB, aprovaram a iniciativa. “E a melhor coisa que poderia acontecer na UnB e acho que tinha que ser obrigatório para todos os cursos. O que estamos recebendo é informação ancestral” diz Edcarlos. Maria Vitória acha que o tempo é pouco e acredita que isso descentraliza o conhecimento na universidade. “ É outra forma de sabedoria”.

O que é Encontro dos Saberes?
O Encontro de Saberes é um projeto piloto que busca o diálogo sistemático entre os saberes acadêmicos e os saberes indígenas, afro-brasileiro, populares e de outras comunidades tradicionais e levou para as salas de aula da UnB mestres de artes e ofícios populares para ministrarem aulas na disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais.

Sr. Zé Jerome essa disciplina foi criada quanto?
A disciplina foi ofertada no segundo semestre de 2010 dentro da grade regular da graduação da universidade.

Teve participações de outros Mestres?

Sim, teve as participações dos seguintes mestres : Biu Alexandre, mestre de teatro popular de Cavalo Marinho, de Pernambuco; Lucely Pio, mestra raizeira quilombola do estado de Goiás, ligada à articulação Pacari de Plantas Medicinais do Cerrado e o mestre Benki Ashaninka, representante do povo Ashaninka do Acre, que desenvolve um trabalho de conhecimento da floresta comprometido com a proteção ambiental. As minhas aulas encerraram na segunda-feira, dia 22 e que encerrou a disciplina foi o mestre Maniwa Kamayurá, representante dos povos indígenas do Alto Xingu, especialista em construção da residência tradicional Kamayurá. Cada mestre foi acompanhado por um professor da UnB.

Quem eram os parceiros nesse projeto?

O projeto tinha parceria do Ministério da Cultura, por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural (SID/MinC), do Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC)  e da Universidade de Brasília. E conta com a parceria do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa, órgão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq).

Entrevista realizada no dia 03/04/2017 no museu Francisco José Veloso, por mim Cláudio Querido